domingo, 25 de maio de 2008

Honestizar, etc. e tal




Honesto (honestus), que nada tem de torpe.

Quem poderia imaginar o fato de a honestidade tornar-se uma notícia bombástica? Pois é, em pleno século vinte e um, a honestidade transformou-se em notícia de telejornal. Como? Simples.

Num belo dia de maio, o violinista Philippe Quint deixou num táxi nova-iorquino o seu violino- nada mais, nada menos que um Stradivaris de quatro milhões de dólares. O taxista percebendo o pequenino lapso de memória daquele músico, praticou o gesto que, para ele e para poucos outros, seria a coisa mais natural desse mundo: devolver o objeto ao seu respectivo proprietário. E, posso eu imaginar o estado emocional desse violinista ao perceber que seu valioso violino (entenda-se aqui o valor não-material) não mais o acompanhava. Se não entrou em pânico, esteve bem próximo disso. Em troca, o taxista recebeu a quantia de cem dólares e um concerto de meia hora em sua honra. Curioso, não?

Incrível pensar que a honestidade tornou-se atitude rara e digna de ser recompensada, e não só apenas reconhecida. E mesmo o fato de ser reconhecida nos sinaliza a possibilidade de ser algo não muito praticado entre os seres humanos. Alguém já imaginou ser recompensado pela prática da honestidade, da gentileza, da elegância? É. Dizem que evoluímos e que estamos progredindo. Às vezes penso (e não quero parecer radical, nem generalista) que a humanidade tem sido mais retrógrada hoje do que em séculos anteriores. Não sei se estamos aprendendo a ser indiferentes ou se estamos sendo treinados para isso, sem que percebamos. Parece-me ser natural; parece-me ser cultural.

As coisas boas da vida, os bons sentimentos e gestos estão sendo deixados para trás. Há quem não acredite em amizade verdadeira, ou que 'leve a mal' um gesto de carinho. Muitos não conseguem apreciar, nem sentir e nem perceber a paz que outras pessoas transmitem e, incomodadas com isso, fazem de tudo para alterar esse estado. Hoje em dia, ser gentil e cuidadoso pode significar aos outros que você tem interesses secundários, seja lá pelo que for. Ser generoso, é ser 'babaca', flexível demais.

Minhas palavras não se pretendem pessimistas, porém realistas em certos aspectos. Acredito veementemente que há tantas belas pessoas capazes de atitudes igualmente belas. Como acredito que todo homem é capaz de (re)aprender a praticar tudo aquilo que faz bem a si e ao outro. Amar a si é uma das primeiras formas de expressão por amor ao outro, pois só amando primeiro a si é que somos verdadeiramente capazes de amar ao outro. E por esse viés, pergunto: esquecendo-nos ou pouco praticando tudo aquilo dantes já descrito, estamos amando a nós? Não amar o 'outro' significa também que não estamos amando a nós mesmos.

Destarte, ainda há um certo grupo de pessoas que duvidam muito que outras possam ser honestas, gentis, carinhosas, pacíficas, generosas, amigas. Lembrei-me de uma amiga que de tão bom coração e por ser tão iluminada e complacente em seu ambiente de trabalho, foi ameçada por outro alguém. Há quem não suportou enxergar o bom coração que ela tem e zangou-se de tal forma que a feriu verbalmente.

O meu real desejo é que nossas boas e simples atitudes sejam restauradas e vivenciadas todos os dias. Fazem parte de nossa essência e, se porventura não faz parte da vida de alguém, certamente não será difícil de ser aprendida e apreendida. Tudo o que é bom para mim e para o outro deve ser inerente à minha natureza, à minha cultura, aos meus gestos, ao meu viver.

2 comentários:

  1. Lindo pensar Vanessa !! eu te diria mais: É pena que as pessoas no mundo estejam perdendo sua condiçao humana de olhar-se humana no outro humano.Pena que Pena que a natureza humana venha se prendendo a um "ter" inesgotável e um "ser" rejeitado. bjs Concita

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  2. Van minha alma querida, reconheço a imagem, reconheço o pensar. Honestizar sim penso ser o que mais precisamos.
    Parabéns, os textos estão muito bons.Beijocas

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