quarta-feira, 30 de julho de 2008

Palavras


Eu não sei ao certo se as palavras nos cobrem ou se nos despem.
Eu não sei se elas dizem tudo o que deveria ser dito.
Eu não sei de onde surgem e por que chegam a nós.

Às vezes é riso, é choro, é dor, é estupenda felicidade.

Há um "sempre" em que num "sempre" quase sempre não se crê; é quando falam sem qualquer movimento labial, sem qualquer dissonante letra rasgando o silêncio.

É dita pelos olhos e quase sempre ninguém ouve.

Letra.
Sílaba.
Palavra.
Frase.
Textos.

Uma harmonia resultante de (in)tensa emoção.

[As palavras ganham magia na boca de quem ama, viram lágrimas naqueles que sofrem, são pedras que magoam ou flores oferecidas com amor...]

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Fato

Toda forma de desprezo depaupera o coração de quem oferece e machuca muito quem o recebe.
No entanto, desprezo só é desprezo enquanto for prezado.
V.

domingo, 25 de maio de 2008

Honestizar, etc. e tal




Honesto (honestus), que nada tem de torpe.

Quem poderia imaginar o fato de a honestidade tornar-se uma notícia bombástica? Pois é, em pleno século vinte e um, a honestidade transformou-se em notícia de telejornal. Como? Simples.

Num belo dia de maio, o violinista Philippe Quint deixou num táxi nova-iorquino o seu violino- nada mais, nada menos que um Stradivaris de quatro milhões de dólares. O taxista percebendo o pequenino lapso de memória daquele músico, praticou o gesto que, para ele e para poucos outros, seria a coisa mais natural desse mundo: devolver o objeto ao seu respectivo proprietário. E, posso eu imaginar o estado emocional desse violinista ao perceber que seu valioso violino (entenda-se aqui o valor não-material) não mais o acompanhava. Se não entrou em pânico, esteve bem próximo disso. Em troca, o taxista recebeu a quantia de cem dólares e um concerto de meia hora em sua honra. Curioso, não?

Incrível pensar que a honestidade tornou-se atitude rara e digna de ser recompensada, e não só apenas reconhecida. E mesmo o fato de ser reconhecida nos sinaliza a possibilidade de ser algo não muito praticado entre os seres humanos. Alguém já imaginou ser recompensado pela prática da honestidade, da gentileza, da elegância? É. Dizem que evoluímos e que estamos progredindo. Às vezes penso (e não quero parecer radical, nem generalista) que a humanidade tem sido mais retrógrada hoje do que em séculos anteriores. Não sei se estamos aprendendo a ser indiferentes ou se estamos sendo treinados para isso, sem que percebamos. Parece-me ser natural; parece-me ser cultural.

As coisas boas da vida, os bons sentimentos e gestos estão sendo deixados para trás. Há quem não acredite em amizade verdadeira, ou que 'leve a mal' um gesto de carinho. Muitos não conseguem apreciar, nem sentir e nem perceber a paz que outras pessoas transmitem e, incomodadas com isso, fazem de tudo para alterar esse estado. Hoje em dia, ser gentil e cuidadoso pode significar aos outros que você tem interesses secundários, seja lá pelo que for. Ser generoso, é ser 'babaca', flexível demais.

Minhas palavras não se pretendem pessimistas, porém realistas em certos aspectos. Acredito veementemente que há tantas belas pessoas capazes de atitudes igualmente belas. Como acredito que todo homem é capaz de (re)aprender a praticar tudo aquilo que faz bem a si e ao outro. Amar a si é uma das primeiras formas de expressão por amor ao outro, pois só amando primeiro a si é que somos verdadeiramente capazes de amar ao outro. E por esse viés, pergunto: esquecendo-nos ou pouco praticando tudo aquilo dantes já descrito, estamos amando a nós? Não amar o 'outro' significa também que não estamos amando a nós mesmos.

Destarte, ainda há um certo grupo de pessoas que duvidam muito que outras possam ser honestas, gentis, carinhosas, pacíficas, generosas, amigas. Lembrei-me de uma amiga que de tão bom coração e por ser tão iluminada e complacente em seu ambiente de trabalho, foi ameçada por outro alguém. Há quem não suportou enxergar o bom coração que ela tem e zangou-se de tal forma que a feriu verbalmente.

O meu real desejo é que nossas boas e simples atitudes sejam restauradas e vivenciadas todos os dias. Fazem parte de nossa essência e, se porventura não faz parte da vida de alguém, certamente não será difícil de ser aprendida e apreendida. Tudo o que é bom para mim e para o outro deve ser inerente à minha natureza, à minha cultura, aos meus gestos, ao meu viver.

domingo, 11 de maio de 2008

Ode aos pequenos grandes sábios




Que palavras falariam o suficiente sobre esses rostinhos?

Que eles são lindos de dentro pra fora e de fora pra dentro, todo mundo já percebeu. Interessante, mesmo, é observar a forma como eles descobrem o mundo. Para eles, uma só palavra pode reger toda a atitude do descobrir: Admiração. E, levando-se em conta o fato de que a admiração constitui uma das atitudes pré-filosóficas, eles, assim como todas as crianças, verdadeiramente são grandes filósofos. Esses pequenos encantam-se com absolutamente tudo.

Admirar faz com que esses olhinhos brilhem. Constatar esse fato não é tarefa difícil.

Deparam-se com uma flor e logo admiram sua cor. Querem tocá-la, cheiram, arrancam as pétalas e franzem a testa no momento da descoberta. Não satisfeitos, muitas vezes a põem na boca; querem sentir o gosto e fazem careta se não for tão doce o sabor dessa descoberta - embora eles não estejam preocupados com o sabor. Pronto! Agora sabem o que é uma flor. Mas hão de descobrir muitas outras flores e seus aromas.

Passeiam pelas ruas. Um cachorro dobra a esquina. Os olhos arregalados e brilhantes perguntam: "O que é isso?". E nós, 'infalíveis' informantes desse mundo, dizemos com voz de mimo: "É um 'au-au'. É um amiguinho. Olha só que fofinho...!" Desdobram-se e soltam nossas mãos. Querem ir ao encontro do 'au-au', tocá-lo e certificar-se se é 'fofinho', mesmo. Para os pequenos, é maravilhosa a sensação do roçar da língua do cachorro nas mãos deles. "O focinho é geladinho, o pêlo é macio e andam sobre quatro patas... Nossa! Quanta coisa diferente de mim!!"

Calçados com meias e pequeninos sapatos, descobrem que ficar descalço e caminhar dessa forma pode ser muito relaxante. Andar pela grama? Experimentam uma nova textura. "É super legal! É mais geladinho para os pés... Sinto cócegas!" Sentir a areia por entre os dedos pode ser igualmente maravilhoso como tocá-la com as mãos. Deitar e rolar no chão? Ver o mundo rodar? Tomar banho de chuva? "Ah! Isso é bom! Quero fazer mais vezes!"

À noite, ainda não exaustos das descobertas do dia, olham para o céu e perguntam o porquê de tudo ficar escuro. Mas, há pequenos pontos brilhantes, tão pequenos que cabem na mão. São muitos os pontos brilhantes e não conseguem contar. Na visão deles a Lua é maior, porém nome pequeno e só há uma na imensidão do Universo. É mais fácil contar e chamá-la Lua. Perplexos diante dos mistérios do Universo, são dessa forma apresentados à Lua e às estrelas.

Conhecer Lua e estrelas não é muito nem é tudo. Querem mais. Querem tocá-las, colocar na boca, abraçá-las, ouvi-las, sonhá-las, alcançá-las. Mas, como? O que diremos a esses pequenos grandes sábios? Os adultos que acham que sabem tudo, falam sem pensar uma grande bobagem: "Não! Essas você não pode tocar. Estão longe demais...". Os pequenos que até então não haviam descoberto a decepção, são apresentados a ela. Certamente, os adultos que assim respondem receberam a mesma resposta e habituaram-se a ela e à impossibilidade de tocar, mesmo que de forma que só aqueles que desejam tocar as estrelas e a Lua, assim o sabem. Bilac bem descreveu essa sensação: "Amai para entendê-las! Pois, só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender as estrelas".

E eu poderia falar em tantas outras descobertas, dos primeiros passos, das primeiras palavras, a primeira ida à praia, os primeiros amiguinhos, o primeiro dentinho mole, o primeiro dia de aula...

E não poderia esquecer os quatro rostinhos que ilustram essas palavras: Kássia, Abrahão, Alvinho e Vital. Quatro belas vidas, quatro belas obras de arte.

Eles estão num momento muito especial de suas vidas. Estão descobrindo... estão admirando!!!

Sem tantas delongas, tenho alguns pedidos a lhes fazer:

Não esqueçam que brincar é muito bom. Muitos que crescem, esquecem de brincar, perdem essa capacidade, envergonham-se. Mas, levem em si as lembranças do brincar e brinquem muito, mesmo quando adultos.

Não se apressem tanto em crescer. Ser criança não é apenas uma fase da vida, mas um estado de espírito que deve ser perpetuado durante toda a vida.

A verdade sempre vos fará bem (especialmente as vossas verdades), embora muitos possam fazê-los desacreditar da verdade. Falar e praticar a verdade não será pesado às suas vidas, porém tudo será leve se for regido pela verdade.

Não se preocupem em ser perfeitos. Sejam bons e pacíficos. Sejam fraternos e verdadeiros amigos. Pratiquem a generosidade e nunca dêem as costas àqueles que vos estenderem as mãos.

Amem a sabedoria, procurem a inteligência, a humildade e a simplicidade. Elas estarão sempre à sua espera.

Peçam a Deus a capacidade de enxergá-lo e reconhecê-lo naquelas coisas e momentos que parecerem mínimos, mas que na verdade, são grandes acontecimentos.

Encontrem a felicidade em tudo o que há de mais simples. Sejam completos de felicidade. Encontrar a felicidade no que há de mais simples é ser inundado da verdadeira felicidade.

Levem a paz e o amor aonde quer que vocês tenham que ir.

Ademais, sorriam, sorriam muito!!!!!

E Admirem, SEMPRE!

sábado, 12 de abril de 2008

Uns Versos


Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro,
Um rádio
Eu sou pelo avesso sua pele
O seu casaco

Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo

(Adriana Calcanhoto)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Amor-Composto-Composto-Amor

Amor-estrela
Amor-flor
Amor-vida
Amor-sol
Amor-alegria
Amor-sorrir
Amor-cor
Amor-canção
Amor-verdade
Amor-sabedoria
Amor-amizade
Amor-nascer
Amor-renascer
Amor-mor
Amor-poesia
Amor-prosa
Amor-perfeito
Amor-quase-perfeito
Amor-irradia
Amor-simples
Amor-cúmplice
Amor-crescer
Amor-terno
Amor-eterno
Amor-verde
Amor-arte
Amor-busca
Amor-alma
Amor-discreto
Amor-crepúsculo
Amor-perto
Amor-paz
Amor-Divino
Amor-substantivo
Amor-indescritível
Amor-ilimitado
Amor-vivido
Amor-espírito
Amor-fraterno
Amor-indelével
Amor-luz
Amor-compreensão
Amor-mão
Amor-ombro
Amor-colo
Amor-sabor
Amor-vitória
Amor-palavra
Amor-atenção
Amor-gosto

Amor-composto
Composto-amor
Amor-com-amor

Amor-amor

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Horizontes

"Meu olhar precipitou-se ao dizer-me nunca mais ,
Fiquei a deriva; dias, noites...
Armei-me com outra visão
Explodi as vidraças opacas
E as meninas dos meus olhos
Multiplicaram-se
Vejo agora o que não via
Impossíveis imagens
Horizontes e outras margens"
(Heloisa Galves)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Encantadora de Almas

Quem és?
De onde vens, encantadora de almas?
Usas-te de quê?
Usas-te de muitos instrumentos.

Como podes ser assim?
Chega a mim
e extrai de mim
a mim mesma.

Provocas em mim catarse
imediata.
Afastas de mim todos
os meus medos.

Lês a mim
na ponta de meus dedos.

Como podes me revelar a mim
de forma tão escancarada?
És descarada?
Não! Claro que não!

És vida, és linda,
és sempiterna.
Estás em todos os lugares,
estás em mim,
aonde quer que eu esteja,
aonde quer que eu vá.

'Inda que os tempos passem
não passarás.
'Inda que o infinito universo
unifinite-se,
permanecerás ao lado de quem sabiamente
te criou.

E porventura,
há algo mais que
te supere em beleza?

És obra, és dom,
és arte-maior,
és pura, és energia,
és frio, és calor,
és amor!!!

Quem podes ser?

És Música!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Vago Pensar

Tenho uma cara e pareço com muitas caras.
Tenho um sorriso que sorri verdadeiro
e que não se envergonha de sorrir a mais simples alegria.
Tenho lágrimas que descem de meus olhos
como rios que não sabem ao certo o seu curso.
Não sei ao certo de onde elas surgem e por que surgem.
Só sei que lavam minha alma sempre que preciso,
renovam-me.
Porém, não persistem;
logo vem o sol e ergue-se com ele
novas chamas de força
para recomeçar.

Há mais, há mais...!

Tenho uma vida que perpetua-se
como milagre todos os dias
e a cada segundo.
E há quem não acredite em milagres... mas VIVE!
A minha vida vê outras formas de vida em outras vidas-
como reflexo e extensão-
e encanta-se pelo poder de toda essa força.

Há mais, há mais...!

Há algo mais que supremo em tudo o que vejo...
Uma flor que vagarosamente desabrocha,
o orvalho que suavemente percorre a epiderme das pétalas,
a chuva que humildemente derrama-se sobre os poros dessa nossa terra,
as folhas das árvores e sua diversidade de tons verdes,
o canto dos pássaros em forma de agradecimento e engrandecimento,
a doce lição da vagarosa dispersão das nuvens coloridas pelo crepúsculo
sob o mais belo tom azul,
as estrelas, seu brilho e os melhores mistérios revelados enigmas,
os oceanos e nossa reciprocidade energética,
os meus sentidos,
o meu corpo...

Há mais, há mais...!!

A vida encanta-se de admiração
com a mais sincera forma de doarmos
admiração.
Quem verdadeiramente admira-se da vida?
Quem verdadeiramente admira-se com a vida?
Improvável sermos autênticos
dizendo-nos admirados da/com a vida.

Há mais, há mais...!

Somos superficialmente gratos pelo
empenho da força-vida.

Há mais, há mais...!

A vida nos é fiel,
escolheu a nós
para em nós viver.
E o que me resta?
E o que nos resta?
Apesar da vida ser palco,
não há ensaios para a vida,
não há como retornar
e viver o que não foi vivido.

A vida é bela para ser VIVIDA
com muito ímpeto,
com muita VIDA!

(Imagem: Girafas, by Camila Cobucci)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

CATAVENTO E GIRASSOL


Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido, eu te pedi sustenido e você riu bemol
Você só pensa no espaço, eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio, você é litorânea

Quando eu respeito os sinais vejo você de patins vindo na contramão
Mas quando ataco de macho, você se faz de capacho e não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega, nós não ouvimos conselho
Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho

Eu sou do Engenho de Dentro e você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio e você é expansiva, o inseto e a flor
Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen
Quando assovio uma seresta você dança havaiana

Eu vou de tênis e jeans, encontro você demais, scarpin, soiré
Quando o pau quebra na esquina, cê ataca de fina e me ofende em inglês
É fuck you, bate bronha e ninguém mete o bedelho
Você sou eu que me vou no sumidouro do espelho

A paz é feita num motel de alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval aumentam os desenganos
Você vai pra Parati e eu pro Cacique de Ramos

Meu catavento tem dentro o vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora o escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade, você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço, você é tão espontânea

Sei que um depende do outro só pra ser diferente, pra se completar
Sei que um se afasta do outro, no sufoco, somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser e eu sou meio vermelho
Mas os dois juntos se vão no sumidouro do espelho
(Aldir Blanc)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Flor de ir embora


Flor de ir embora

É uma flor que se alimenta

Do que a gente chora

Rompe a terra, decidida

Flor do meu desejo

De correr o mundo afora

Flor de sentimento

Amadurecendo, aos poucos

A minha partida

Quando a flor abrir inteira

Muda a minha vida

Esperei o tempo certo

E lá vou eu, e lá vou eu

Flor de ir embora, eu vou

E agora esse mundo é meu.

(Fátima Guedes)