Tua pele
tem o cheiro que eu gosto,
tem o gosto que degusto,
tem os poros que gotejam
milhas e milhas das águas
do meu rio.
É meu leito
que navego sem rumo,
com pressa de chegar,
sem vontade de ancorar.
Nela me deleito, me aqueço,
me banho, me seco,
me molho,
me intumeço, me protejo,
me abrigo.
Na desenfreada viagem
pelos afluentes do teu tronco,
minha língua; uma jangada.
Circunda o abismo do teu
umbigo,
avista dois montes de cumes
perfeitos, eretos
pontudos,
desenhados pelo soprar dos ventos,
arrepio,
arrepias...
Prossigo rio acima ao encontro
dos montes.
Me entrego ao meio: sou deles;
mordo, sorvo, sugo,
sopro,
roço, acaricio,
sal, sol, sul...
És tu um rio ou oceano em fúria?
Sem perigos,
ondulas,
ondulas,
ondulas...!
Minha jangada circunda
por inteiro
a beleza de teus montes.
Na vertiginosa viagem
avisto estrelas e constelações
nos sinais desenhados em tua pele,
em teu dorso,
sublime atalho
às volúpias de teus ombros
fortes, meus,
teus.
A ânsia das tuas águas
almeja o encaixe;
agora não!
Te entonteço
chegando às cascatas
de tua boca.
Mordo teu queixo,
te abraço,
te amasso,
me aperto
entre tuas pernas,
me encaixo, te sinto,
me molhas,
te molho.
Ondulas,
ondulas,
ondulas...!
Te acalmas em mim,
não estou em mim,
em ti
desenfreada respiração,
sopra,
sopras...
teu leito, agora iluminado
pelo sol
fazendo minha pele arder,
ardes...!
Gosto de sal em ti,
em mim,
e uma calmaria em nós.
V.